A menina que tinha medo do mar


Caminhou até a água, mas apenas se sentou na areia. Ali onde brincam as crianças pequenas, acompanhadas de seus pais. Seu namorado a chamava para caminhar um pouco mais, talvez com a água pelos joelhos, mas ela não quis. Molhou-se toda, mas não avançou um palmo sequer.

Ela tinha medo do mar.

Consciente ou inconsciente de seus medos, ela ficou ali, enquanto o jovem nadava por entre as ondas e se refrescava naquela tarde quente de verão.

Ela tinha medo do mar.

Eu, sentado ali próximo, observei a cena que me fez pensar nos nossos medos e receios, muitas vezes infundados e vãos, outras vezes, marcados por traumas e tristezas  deixadas por fatos e pessoas.

O medo é uma forma de proteção, nos faz reagir diante dos perigos e dos riscos. Saber controlar e perceber seu efeito sobre nós é uma virtude que aprendemos com a vida. Maturidade e bom senso, é o que aos poucos, nos leva a dominar a maior parte destas sensações. 

Mas não é assim com todos nós. Conheço gente que tem medo do sol, da chuva, do fim do mundo, da noite, da criminalidade crescente, da piscina que pode ser funda, de molhar o cabelo, de manga com leite etc. Medo de tanta coisas que até achamos graça e fazemos piada. 

Que pena, encarcerados nesses medos deixamos de aproveitar muitas vezes, o que poderia ser algo prazeroso. Excluindo-se aqui, o que é patológico, uma doença, a maioria de nós, tem medos que se quisermos podemos superar. 

Quando trabalhei com executivos na Alemanha, conheci um que possuía um medo incrível de altura. Ele o superou quando percebeu que seu grupo precisava concluir uma tarefa para alcançar uma certa quantidade de pontos. Ao final do exercício, seu relato foi emocionante. Descreveu como se sentiu e o prazer em superar o medo carregado por anos.

Assim como ele, muitos medos menores foram aparecendo em minhas reflexões e pensamentos. Medos desnecessários, infundados. Medos que nos atrasam a vida, que nos adiam o prazer, o conforto, a felicidade, o aprendizado, a convivência a dois… Tantos pequenos medos e receios, tanta coisa que, por conta deles, acaba ficando para trás, caindo no esquecimento ou no arrependimento tardio, por não termos feito. 

Quando parei de escrever, reli o título: A menina que tinha medo do mar.

Olhei para a praia, ela se foi, talvez arrependida, ou com o namorado frustrado.

O mar ficou.

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