Da primavera ao outono em Praga


“depois da cidade, o mundo; depois do mundo, as estrelas.”

Carlos Drummond de Andrade – Poema:  O medo

Existem lugares no mundo que nos fascinam. Assim aconteceu comigo em Praga, na República Tcheca.

Uma reunião da empresa nos levou até lá, pois não estava em meus planos de viagem conhece-la agora. Aproveitei alguns dias que antecediam o evento, e fui passear com minha esposa por esta história viva de ruas e construções magníficas.

O outono na Europa é interessante, faz um pouco mais de frio e não encontramos as hordas bárbaras dos turistas de verão. É possível caminhar pelas calçadas, sentar-se em um café, admirar e surpreender-se com o que vemos, sem sermos empurrados ou levados pela multidão.

A cada viagem que faço, reforço minha convicção filosófica sobre o sentido de estar em um lugar diferente.  Me apoio na visão do filósofo francês Michel Onfray. Para ele, o turista “permanece à porta de uma civilização, toca de leve uma cultura e se contenta em perceber sua espuma (…), o viajante “procura entrar num mundo desconhecido, sem intenções prévias, como um espectador desenganado (…)”.

É quase impossível não ser um pouco de turista, mas  o que me dá prazer, é esta oportunidade única de me reencontrar com muitas coisas de mim mesmo e com o que aprendi ao longo dos anos. Ao conhecer um novo lugar, ou rever lugares que não fazer parte de minha rotina, surpreendo me e aprendo sem a intenção de fazê-lo.

Ao nos aproximarmos do aeroporto, observei do alto, o rio Vlatva – Moldávia como aprendi nas aulas de geografia – traçando seu percurso, sendo cruzado por pontes e margeado por construções que conheceríamos algumas horas depois. O outono acontecia com as folhas amareladas das árvores já caindo nas calçadas e ruas. Uma  agradável sensação tomou conta de mim.

Praga despertava-me o fascínio de uma cidade marcada por movimentos históricos que influenciaram parte de minha formação política e cultural. Ainda criança, ouvia um poema sinfônico composto por Bedřich Smetana na casa de meus pais. Por várias vezes, vi o rio passando por lugares imaginários, guiado apenas pela melodia agradável. Meus pais me proporcionaram uma educação musical importantíssima. Hoje sei o quanto isto é valioso. Para quem quiser conhecer ou ouvir a obra, clique no link a seguir: The Moldau

Alguns anos depois, aprendi nos livros e nas aulas da faculdade, o que foi a Primavera de Praga em 1968, e o valor que este movimento trouxe para toda uma geração de esquerda humanista e antidogmática. Alguns anos se passaram e lembro-me das cenas na tv, da grande massa de alemães orientais que se refugiaram nos jardins da embaixada alemã na cidade e seu salvo conduto para imigrar para a Alemanha Ocidental. Pouco tempo depois, uma revolução branca, a chamada Revolução de Veludo pós fim ao regime totalitário, já sem forças e prestígio.

Em Praga também nascera Kafka, o grande escritor, Mozart teve uma acolhida calorosa e muita arte se produziu nesta cidade.

Um pouco antes de viajar, eu admirava alguns trabalhos do fotógrafo Sebastião Salgado, em sua página no Facebook e vi algumas fotos de Josef Koudelka, fotógrafo checo. Uma delas, com jovens protestando contra a invasão soviética em Praga em 68, noutra, a praça Wenceslas, no exato momento em que os tanques começam a chegar.

Caminhamos por esta mesma praça, a Václvské náměstí numa manhã, e aquelas imagens de Koudelka me vieram à mente. Nos anos 80 eu havia participado dos protestos e comícios pelas eleições diretas no Brasil. Movido pela paixão que os ideais de esquerda motivavam no jovem de dezenove anos. Vi, assim como alguns checos que caminhavam agora a meu lado pelas ruas, após alguns anos, a democracia se reconstituir. Orgulho-me daqueles momentos e das minhas atitudes. Lembro-me de um belo poema engajado de Ferreira Gullar (Homem comum – 1963) que inspirava meus passos, enquanto o coração batia forte: “Mas somos muitos milhões de homens comuns e podemos formar uma muralha com nossos corpos de sonho e margaridas.”

Estou convicto de que escrevi um capítulo importante de minha história naqueles dias e, conhecer Praga, foi recapitular aqueles momentos de transformação e agitação política, além é claro, de muitas outras coisas mais que a viagem nos proporcionou.

Os dias de outono não são mais tão longos como os do verão, encurtam-se e nos sobra pouca luz, mas assim mesmo fotografei. Inspirado pelos registros em preto e branco e históricos de Koudelka, me pus a fotografar, acompanhado por minha esposa, que pacientemente me ouvia contar o que eu havia lido e aprendido anos antes.

Noutra manhã fomos a um lugar, cuja imagem vista quase um ano antes, havia me fascinado. A biblioteca do mosteiro de Strahov. Minha paixão por livros e bibliotecas históricas nos levou em uma longa caminhada, até aquele lugar fantástico. Uma ala para a filosofia e outra para a Teologia. As fotos revelam um pouco desta beleza escondida no monastério.

Nos dias seguintes, caminhamos novamente pelas ruas da cidade e, pouco a pouco as fotos foram sendo tiradas, bem como, as lembranças e reflexões se faziam presentes. Intercaladas por almoços e jantares, pausas para um café na praça ou um concerto de câmara com obras de Smetana, Vivaldi, Pachelbel …

Em tão poucos dias fomos da primavera ao outono em Praga.

Deliciei-me com a companhia, com as oportunidades e a poesia que cada esquina revelava. História, arquitetura, música, poesia, romantismo, aproveitamos tudo isso e registramos em nossas memórias, além das fotografias, momentos para o resto de nossas vidas.

Como escrevera Fernando Pessoa, em seu poema o Mar Portuguez: tudo vale a pena, se a alma não é pequena.

Voltamos com um pouco de Praga em nós, e deixamos lá, algo que reencontraremos em algum momento de nossas vidas. Não é sempre assim?

Valeu a pena.

Praga - Biblioteca do mosteiro de Strahov

Praga – Biblioteca do mosteiro de Strahov

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