O prazer de ler e a vontade de contar…


Recentemente, visitei a livraria El Ateneo, em Buenos Aires. Segundo o jornal The Guardian, trata-se de uma das mais bonitas livrarias do mundo. Um empreendimento que aproveitou um velho teatro, construído em 1919 na Avenida Santa Fé.

Me deliciei com aquela riqueza fantástica, com os milhares de livros expostos e disponíveis em um espaço tão convidativo, não só para a compra, mas para a leitura e a contemplação.

A livraria é um espetáculo por si própria. Um convite a ler os grandes escritores argentinos, entre eles, Borges, Cortazar, Sábato. Um momento de prazer ao circular por entre as estantes e saciar a curiosidade por um título ou um autor.

O palco do teatro tornou-se um café agradável, onde encontramos uma mesa, e tomamos um café em meio aos livros e apreciadores de nacionalidades variadas.

Ficamos por ali um bom tempo. Aliás, o tempo parece não passar naquele lugar. Às vezes, a abóbada, pintada com motivos bíblicos por Nazareno Orlandi, roubava-me a atenção.

Tudo ali é um convite ao prazer da arte, que se quer sorvida e fruída. El Ateneo, não é um espaço da pós-modernidade, fria e calculista, não é uma lounge à espera do leitor que quer o prazer fulminante e aparente.

El Ateneo - 2011

Os livros fizeram parte de minha formação, não como uma obrigação ou uma tarefa penosa. Tornaram-se fonte de prazer, satisfação e inspiração. Lembro-me de algumas leituras iniciais, uma edição da Odisséia de Homero para crianças, o livro de Inglês, onde aprendi meus primeiros vocábulos anglo-saxões com meu avô Israel, os livros de poesias de Castro Alves e Casimiro de Abreu, que meu pai fazia questão de mostrar-me e ler alguns dos poemas em voz alta.

Cresci em meio a uma biblioteca na casa de meus pais. Muitos dos livros vieram em baús da Alemanha, e passaram a fazer parte de meu cotidiano, quando ainda era criança. No sítio de meu avô, também me deliciei com algumas leituras. Depois, freqüentei bibliotecas menores, como a da União Cultural, local de gente culta e de conversas sui generis, como dizia meu pai. Seguiram-se as bibliotecas Mário de Andrade, a Circulante de São Paulo, quando funcionava na Praça Roosevelt.

As livrarias foram se tornando meus locais preferidos, quando saia para as compras com meus pais. Frequentei diversas, em vários lugares por onde passei e morei. Em algumas, detive-me um pouco mais, em outras, passei mais rapidamente, às vezes somente para sentir aquele cheiro de livro novo e me sentir em contato com eles.

Aos poucos, as edições em papel são arrebatadas por edições digitais. Minha geração nasceu analógica e morrerá, em sua maioria, digital. Os últimos e os próximos dez anos, foram e estarão marcados por transformações significativas na tecnologia de comunicação e informação, nos relacionamentos, na tecnologia de aprendizado e de entretenimento. Os últimos dois ou três anos, foram marcados pelo surgimento dos e-readers, com a missão de algum dia, substituir os livros.

Hoje, tenho em minhas mãos um Ipad. Meu filho, um Kindle. Algumas crônicas no dia a dia, alguns capítulos de livros, são lidos na tela destes recursos ou do computador e até mesmo dos smart-phones.

E o que será do livro? Este magnífico instrumento que serviu para transmitir a todos nós, o conhecimento, a sabedoria, as técnicas, e proporcionar o prazer e deleite de mergulhar em histórias reais e imaginárias.

Saí de El Ateneo, satisfeito, com o firme desejo de retornar. Na sacola de compras, apenas um livro: Felicidad Obligatória de Ricardo Coler. Na memória, as ideias, que se transformam agora nestas linhas.

No dia seguinte, sentamos ao livre para mais um café na Recoleta. Aliás, saborear um café sem precisar olhar para o relógio, sem que seja necessário correr para o compromisso seguinte, é parte do savoir vivre, o saber viver, que admirei nos argentinos em Buenos Aires. Escreverei mais sobre isso, futuramente.

Em um mesa próxima, senta-se um velho senhor. Ele despretensiosamente faz suas anotações em um caderno, com uma escrita rápida, mas de letras bem legíveis. O que escreve? Memórias? Um romance? Eu não sei.

Apenas concluo, naquele final de tarde, somando a visita a El Ateneo e aquela cena, que entre o analógico e o digital, está o humano.

Substituir os livros! Eis uma tarefa que me parece bem difícil, ainda mais para mim. Não os trocarei por arquivos digitais. Alguns novos, aqueles cuja versão impressa seja muito difícil de se comprar, posso adquirir em formato digital. Entretanto, não me vejo abdicando de um bom exemplar em papel, para ser lido a qualquer hora, disponível para me entreter nas noites de insônia e no desejo de aprender. Leio e renovo-me.

Assim, convido você, leitor, a uma leitura prazerosa. Seja na biblioteca, na livraria, no banco de uma praça, na sala ou no quarto de sua casa. Que viaje com as palavras de seus autores preferidos, pelos lugares do mundo, pela história da humanidade, pela beleza das palavras ou pelo universo imaginário de todas as ficções.

Nos reencontraremos aqui. Talvez um pouco mais velhos, um pouco mais céticos ou mais convictos. Em nossas memórias, mais algumas palavras, algumas linhas, algumas histórias.

E quem tiver uma para contar, que a escreva. Aqui, ou em um livro, afinal de contas, há muito o que contar.

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4 respostas para O prazer de ler e a vontade de contar…

  1. adrianadantas disse:

    Você escreveu “leio, e renovo-me”. Dá para ver em seus olhos… Um bom livro, nos leva a uma viagem incrível. Ninguém é o mesmo após a leitura de um livro. E sem dúvida, todos nós, também temos muito a contar. Escrever, pode ser tão prazeroso, quanto ler. Experimentem!

  2. Marco querido,
    Assim como você, entro em livrarias e posso passar horas curiosas folheando, analisando…
    Mesmo com toda a tecnologia em maos, continuo nao abrindo mao de carregar um livro em viagens, pra varanda em uma tarde de sol ou pra cama em dias frios.
    Parece que quem lê demais também se delicia em contar histórias. Por isso, também escrevo em meu blog, de tempos em tempos, quando dá pra unir a inspiracao ao tempo livre.
    Um beijao!
    Natasha

  3. Tullio disse:

    Hoje estamos habituados com a correria e stress. Este momento que voce teve em Buenos Aires è raro e precisa ser mesmo aproveitado. Fico contente por voce e por compartilha-lo conosco.

    Um forte abraço !

  4. Igor Williams De Castro disse:

    Querido Primo:

    Tu relato me dejó con nostalgia, ciertamente en esta era donde todo parece que debe ser rápido no es fácil conseguir gente que disfrute el placer de la lectura; próximamente estaré en Argentina, así que espero visitar esa librería, una sana envidia me provocó al leer esos ratos agradables que viviste con nuestro abuelo…por lo pronto recibe un abrazo!!!

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