A memória e o esquecimento: o que temos para contar?


Uma das virtudes que possuímos é a capacidade de esquecer. Imagine se nosso consciente mantivesse tudo que vimos, fizemos, lemos, disponível de forma imediata?

Viveríamos a permanente acessibilidade de tudo, tal qual um computador em perfeito funcionamento. Estaríamos presos a um presente eterno de memória imediata.

A capacidade de esquecer e lembrar é importante para que possamos pensar no passado, para exercitar o esforço da lembrança, para perdoar, para definitivamente deixar ao largo o que merece ser esquecido ao longo dos anos.

Esquecer-se, também é de certa forma, perdoar-se. Não que tudo deva ser esquecido, mas tampouco tudo precisa ser permanentemente lembrado.

O equilíbrio entre a recordação e o esquecimento é uma das coisas que nos faz amadurecer, nos faz ver o mundo de outra forma, constituir relacionamentos baseados em valores ao invés de cobranças, a sermos diplomáticos ao invés de juízes sem toga.

Recentemente estive em um hospital e ouvi uma história inusitada. Estava ali, na unidade de tratamento intensivo, um casal, pessoas idosas e ambos acometidos pelo implacável mal de Alzheimer. A doença do esquecimento. Cada qual desconhecia a presença do outro no leito ao lado.

Uma grande e infeliz coincidência. Uma obra do acaso. Cada qual deitado em seu leito, cercado de fios e tubos, de aparelhos e controles para manter o metabolismo em funcionamento.

Esta cena, apenas descrita por quem a viu, me fez lembrar dias depois, do filme argentino, O filho da noiva. Uma comovente história de amor, de carinho e de comprometimento. Assisti ao filme novamente para provocar e alimentar-me a alma.

Para o casal do hospital, talvez seja melhor assim, sem assistir ao sofrimento do cônjuge. Cada um com sua história, com seus dias de alegria e de tristeza, com filhos e talvez netos a esperar na sala de visitas. Eles me fizeram refletir mais um pouco sobre o que verdadeiramente somos e o que fazemos no dia a dia, para que a memória seja exercitada, para que haja lembranças, recordações, algo para servir de herança não material.

Nossa incrível capacidade de lembrar, de sentir nossa a história com os olhos do presente é algo que precisamos cultivar. Hoje vivemos tempos e rotinas que nos fazem esquecer muito rápido do que verdadeiramente é essencial. Esquecemos de quem somos, de onde viemos, das amizades, dos valores, de tantas coisas…

Sempre gostei de ouvir as histórias contadas por minha mãe. Suas aventuras cotidianas na Alemanha do final da guerra, de sua fuga para o ocidente, da construção de uma vida nova no Brasil. As histórias do meu pai também são cheias de emoção, suas brincadeiras de infância nas várias cidades onde morou, seus passos na política, os momentos históricos que presenciou.
São pessoas com histórias para contar. Sempre gostei de sentar ao sofá em uma tarde de final de semana, acompanhado por uma xícara de chá ou café e ouvir estas histórias.
Histórias que desejo ver escritas para serem perpetuadas. Presenteei minha mãe com um livro em branco para que fossem registradas as suas memórias.

É simplesmente gratificante vê-los se lembrar, resgatar, reproduzir com prazer, com orgulho ou até mesmo com tristeza algumas de suas passagens. São suas histórias e eles sempre tem algo para contar.

A sociedade do esquecimento é aquela que não se lembra do que já foi. Seus museus são virtuais, suas histórias são passageiras, seus sujeitos se perdem na multidão, no consumo, no esquecimento. Nossa sociedade vive para o presente e se lança para um futuro cada vez mais mediado pela tecnologia, pela rapidez na entrega, pelo brilho dos produtos, pelos prazeres do instante, pela fama rápida, pela fortuna financeira em poucos anos. O indivíduo tende a perder-se neste presente contínuo e a ficar sem histórias para contar.

Mas, voltando ao casal de velhinhos no hospital, não sei que fim levou. Senti, em não poder ajudá-los. Penso naquelas memórias, apagando-se, perdendo-se por conta da enfermidade ainda sem cura. Uma sina inexorável. O que eles deixaram para ser lembrado, uma vez que eles se esqueceram de tudo? Talvez, ainda que anonimamente, fique para eles, esta crônica como registro.

Mas antes que nos esqueçamos, eu pergunto, o que temos para contar?

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2 respostas para A memória e o esquecimento: o que temos para contar?

  1. Ricardo disse:

    Next month we’ll sit on a couch with a cup of coffee or tea, and we too will share some memories. Wonderful blog post, by the way. I like your idea of providing a journal to your mom – I believe I’ll do the same.

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