Às vezes não precisamos de pernas para andar…


Já faz algum tempo que minha perna quebrou. Foi em um final de semana, onde não fiz grandes esforços, em um daqueles momentos de conjunção de forças, ângulos e pontos de resistência, em que dois ossos se quebraram e senti a maior dor física que já havia me acometido.

Depois disso, foram as cirurgias para limpeza e a de colocação das placas, a fisioterapia e uns dias em casa. Ainda não estou andando normalmente. Duas muletas me acompanharão por mais algum tempo, até que o médico lhes dê a carta de alforria e eu possa andar normalmente. Tudo passou muito rápido. Parece que foi ontem que tudo aconteceu.

Enquanto estive em casa, primeiro procurei me acostumar com o fato de ter quebrado a perna. Não é algo que imaginava acontecer comigo e foram necessários alguns dias para que eu pudesse aceitar esta realidade. Depois, vieram os momentos de reflexão, a pergunta que não deixava de vir à mente: porquê isto aconteceu comigo?

Decidi me satisfazer com a conclusão de que algo em meu universo não estava em ordem. Descobrir o que  verdadeiramente não estava equilibrado foi uma das tarefas que me propus dali em diante. Entretanto, após vinte dias em casa, já não conseguia mais olhar para as paredes, ler emails e assistir a uns poucos programas de televisão que me atraiam. Concentrar-me e refletir, era difícil também. Decidi, com anuência do médico, que voltaria a trabalhar, mesmo com muletas ou cadeira de rodas.

Do primeiro dia em diante, não me lembro de quantas vezes respondi a pergunta: O que aconteceu com você? Além da curiosidade, percebi que algumas pessoas não imaginavam que algo assim poderia acontecer comigo. Algumas chegavam a expressar isso com surpresa: Nossa, você?

O retorno ao mundo me fez bem. Sinto que foi um passo importante em meu processo de recuperação, e ao mesmo tempo, de busca pela resposta à pergunta que me fiz.

Ao longo deste período, percebi uma solidariedade natural daqueles com quem convivo, seja em casa ou no trabalho, parentes ou amigos, próximos ou distantes. Me ajudaram a fazer coisas que facilitaram a vida e o trabalho nestas condições. A todas estas pessoas, sou grato de coração.

Assim também, sou grato às pessoas das quais, algumas vezes eu sequer sabia o nome, e que se dispunham a ajudar quando necessário, que não demonstravam qualquer indignação ou sinal de incômodo por fazer algo por alguém que requeria ajuda. Aprendi que pequenos atos, se somados fazem a diferença. Parafraseando o poeta japonês Ryonosuke Satoro, sozinhos são gotas, juntos, um oceano.  Estes gestos foram muito importantes. A todos, muito obrigado.

Encontrei pessoas com problemas muito maiores que os meus. Percebi efetivamente que uma perna quebrada se “conserta” e outras tantas coisas na vida não são assim tão simples de se resolver. Percebi o valor da mobilidade, da incrível capacidade que nossa natureza nos proporciona e que requer cuidados. Percebi que somos mais frágeis do que parecemos ser. Passei a perceber aqueles que me perguntavam com vontade sincera de ouvir e aqueles que o faziam por educação ou obrigação protocolar. Percebi que uma vaga de estacionamento para deficientes em muitos lugares é tão importante quanto a vaga para um idoso. Percebi mãos amigas, palavras de conforto e estímulo. Percebi que ao longo destes dias, e já se vão quase três meses, eu continuei a pensar, a escrever, a trabalhar e mesmo com a restrição que a perna me impunha, eu buscava o equilíbrio, sob os dois aspectos, todos os dias. Às vezes com sucesso, às vezes não.

Posso dizer que passei por uma situação difícil, entretanto, não deixei de me levantar um dia sequer, não desisti. Descobri ao longo destes dias, muitas pessoas que também não desistiram, como o motorista do shopping center que ontem a noite me contou sua história de recuperação.  Aprendi com uma pessoa maravilhosa, que dizer sim a vida é uma opção.

O que importa desta jornada é o que estou aprendendo com ela. O que aprendi com as pessoas, o que passei a perceber com mais facilidade, o que aprimorei em minhas habilidades e competências, o prazer que obtive ao estar mais sentado do que em pé, ao ler mais, escrever mais, dentre muitas outras coisas que esta condição me proporcionou.

Ao longo destes três meses, percebi um pouco mais da vida. A vida como ela de fato é, com pessoas dispostas a ajudar e pessoas amargas a se esconder, a vida com sol e com chuva, com palavras de estímulo e o silêncio da indiferença, com sucessos e insucessos, com esperança e desesperança, com desistência e superação.

Enfim, percebi um pouco mais da vida. Às vezes não precisamos de pernas para andar. Eis a resposta.

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